O ministro André Mendonça, relator do inquérito do Banco Master, mandou a Polícia Federal a identificar os destinatários e as pessoas mencionadas nas mensagens do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, mesmo que elas fossem detentoras de foro por prerrogativa de função ao cometer crimes comuns, como ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), presidente e vice, Procurador-Geral da República (PGR) e presidentes da Câmara e do Senado.
Graças à determinação de Mendonça, a Polícia Federal chegou em nomes como o do seu colega de Supremo Alexandre de Moraes, e no do procurador-geral da República, Paulo Gonet – que não tem diálogos diretos com Vorcaro, mas é citado em conversas com o próprio Moraes.
Um trecho desta decisão de Mendonça está destacado no relatório da PF que tornou-se público nesta terça-feira (1/9). No despacho, o relator determinou ao coordenador de inquéritos nos Tribunais Superiores da PF que apresentasse, em 72 horas, “informações atualizadas sobre o atual estágio das investigações, notadamente no que concerne à identificação dos integrantes da suposta rede de influência e monitoramento gerenciada por Daniel Bueno Vorcaro”.
Mendonça ressaltou ainda que, assim que a Polícia identificasse os destinatários e demais mencionados nas referidas mensagens, eles deveriam entregar a íntegra de todas as mensagens e interações existentes que envolvessem as mesmas pessoas. Determinou ainda a preservação do sigilo, zelo, e compartimentação das atividades de inteligência e de polícia judiciária.
No relatório, a PF destaca que, em obediência à Lei Orgânica da Magistratura Nacional (LOMAN) e da Lei Orgânica do Ministério Público, o trabalho dos agentes restringiu-se a identificar com que Vorcaro conversava, sem aprofundamentos.
“Não foram realizados quaisquer atos de aprofundamento investigativo direcionados a magistrados ou membros do Ministério Público, tampouco diligências tipicamente policiais destinadas à apuração de condutas que, em tese, possam configurar ilícitos penais, limitando-se o presente trabalho à identificação e exposição objetiva dos elementos já existentes no material regularmente arrecadado e submetido à supervisão judicial”, diz a Polícia Federal.
O que diz o relatório?
O relatório da PF traz uma série de mensagens trocadas entre Moraes e Vorcaro – no modo de operação em que Alexandre apagava as mensagens e Vorcaro enviava os conteúdos escritos em um bloco de notas com visualização única. De acordo com as conversas, Moraes teria lido e feito alterações no contrato do escritório da esposa com o Banco Master.
Em um dos trechos, em uma conversa no dia 15 de novembro de 2025, dois dias antes da prisão, Vorcaro perguntou a Moraes: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”
Um dia antes Vocaro escreve a Moraes: “Estamos juntos sempre. Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você. Toda a minha família, funcionários, parceiros, amigos que dependem de nós, tem uma divida de vida contigo e sua família”.
Em outra mensagem, Vorcaro diz a Moraes que mobilizou “gente pesada” e diz que mostrou até carta da família real de Abu Dhabi. O diálogo se dá em um contexto que Vorcaro estaria tentando negociar o Master com investidores estrangeiros e queria que a PF e Moraes tentassem conter qualquer operação contra ele e a instituição financeira. Vorcaro também pergunta ao ministro: “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”.
A investigação da Polícia Federal aponta ainda que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro negociou a transferência de cotas de um jatinho e de um helicóptero como pagamento por um segundo contrato com o escritório de Viviane. O contrato de R$ 50 milhões previa quitar R$ 40 milhões com a transferência de cotas das duas aeronaves.
Código de conduta
Em um evento mais cedo, no STF, Mendonça defendeu o Código de Ética proposto pelo presidente Edson Fachin. A declaração se deu antes dele liberar o sigilo dos autos que envolvem os nomes de Alexandre de Moraes, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues.
“Um código de conduta é uma forma de nós expressarmos para sociedade os padrões que nós devemos ter como magistrados. Podemos discutir um pouco a modulação, mas precisamos ter um código de conduta. E um código de conduta se insere naquilo que conceitualmente denomina accountability. Uma accountability interno com o espectro do accountability externo. E essa expressão, accountability, é importante dizer, ela tem três dimensões. Ela tem a dimensão de transparência, mas não só isso, de prestação de contas. E o código de conduta se insere muito nesses dois elementos”.
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'Não foram realizados quaisquer atos de aprofundamento investigativo direcionados a magistrados', diz a PF no relatório