Campanhas não estão ‘mornas’, nós é que não as enxergamos mais
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Campanhas não estão ‘mornas’, nós é que não as enxergamos mais
redes sociaisSensação de que eleição 'não pegou' evidencia dependência crítica que debate público tem hoje da lógica algorítmica das plataformas digitais

Ao contrário do que se poderia esperar de uma eleição acirrada, altamente polarizada e marcada por temas caros ao eleitorado, têm sido frequentes os relatos de que a campanha deste ano “não pegou”, está “morna” ou “não mobiliza”. “As pessoas estão cansadas” é o sentimento corrente para explicar a aparente falta de ânimo. A sensação, no entanto, é falsa.

A uma semana da eleição, as campanhas estão no auge e a polarização segue mais presente que nunca. Temas como o Banco Master, a crise do STF, as facções criminosas (ou terroristas) e agora as bets alimentam intensos debates em diversos espaços. O que essa realidade revela é o nível crítico de dependência a que o debate público chegou em relação à lógica algorítmica das plataformas. A campanha não está morna: nós é que não a vemos mais.

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Por decisão da Justiça Eleitoral, no registro de cada candidatura é obrigatória a indicação dos perfis oficiais de campanha, que são informados às plataformas para que cessem a operação algorítmica sobre eles. A medida é necessária: evita favorecimentos indevidos e impede que candidatos explorem a lógica de engajamento que premia o extremismo, a radicalização e a ofensa.

Por outro lado, as candidaturas podem impulsionar seus conteúdos, desde que declarados, com alta segmentação de público-alvo e maior capacidade de alcance. Um candidato a deputado, por exemplo, pode alcançar pelo meio digital eleitores em todo o seu estado, sem ficar obrigado a concentrar recursos territorialmente. Mas sem a operação do algoritmo o conteúdo orgânico não circula para além de quem já segue o candidato, e o que chega a cada um de nós é apenas o conteúdo impulsionado, dirigido a quem já tem afinidade.

Ao menos desde 2018, as redes sociais se tornaram o principal meio de campanha, e bandeiraços, carreatas e panfletos cederam espaço a anúncios, grupos de WhatsApp e aos famosos “cortes”. Se esse movimento tirou a campanha das ruas, a regulação sobre a operação algorítmica “orgânica” a tirou do pouco que restava de espaço público digital, hoje mediado de ponta a ponta por filtros com pouquíssima transparência.

O resultado é que, para cada um de nós, a campanha se resume aos candidatos com os quais já temos afinidade, e simplesmente não enxergamos o que se passa no feed ao lado. É a bolha informacional de que tanto já se falou, agora em sua versão eleitoral. Não temos mais uma campanha por candidato, e sim mais de 150 milhões de campanhas, uma para cada eleitor, transcorrendo na tela do celular apenas para consumo individual. Removido o algoritmo, quase nada chega às pessoas, a não ser por meios tradicionais, como a TV aberta e o horário eleitoral gratuito.

Esse estado de coisas ajuda a explicar outros efeitos. O debate eleitoral, em seu formato tradicional, deixou de fazer sentido como momento de confronto de ideias: virou uma arena de produção de cortes que irão inundar as redes. Não à toa, a “receita Marçal” (baseada em ataques pessoais) parece ter deixado de surtir o mesmo efeito, pois falta o algoritmo ao seu lado para premiar a virulência verbal.

Ao mesmo tempo, candidatos passaram a explorar novos formatos, na expectativa de furar a bolha e alcançar os indecisos. É o caso das “rinhas de podcast”, em que candidatos em geral antípodas do espectro político promovem um “debate” no melhor estilo vale-tudo (por vezes literalmente) para gerar views, engajamento e viralização. Um xingamento bem feito rende mais que um programa de governo.

A campanha em seu estado atual nos obriga a perguntar que espaço existe hoje para alterar as preferências dos eleitores, razão de ser das campanhas desde que elas existem. E, indo além, que opinião pública sobre qualquer tema é possível se formar no Brasil em meio a essa dinâmica algorítmica?

Por fim, vale começar a pensar em como a avalanche da IA impactará as campanhas num futuro próximo. Hoje ela é usada na produção de peças. Mas podemos esperar, em pouco tempo, a criação de um conteúdo para cada eleitor, customizado pelas preferências identificadas em cada perfil. Se já vivemos 150 milhões de campanhas invisíveis umas às outras, a IA pode torná-las, de fato, 150 milhões de campanhas sob medida. E, quanto mais sob medida, já se pode dizer, mais “invisível” a campanha parecerá para cada um de nós.

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