Era abril de 2014, um mês após a primeira fase da Operação Lava Jato, e a então presidente Dilma Rousseff se encaminhava para uma disputa acirrada pela reeleição contra o então senador Aécio Neves.
A internet já era uma realidade nas campanhas eleitorais, mas ainda muito distante da centralidade que tomaria nos anos seguintes.
Era também o momento de consolidação das redes sociais — o fim da transição da internet aberta para os “walled gardens”, ecossistemas digitais fechados com controle de conteúdo e algoritmos de recomendação.
Diante do cenário, o PT organizou um evento chamado Camping Digital, inspirado na Campus Party, para orientar a militância sobre como agir na campanha dali a alguns meses. Foram palestras sobre como utilizar a linguagem dos memes na política e como se comportar em discussões online, entre outros assuntos.
Aquela campanha ficou marcada como a primeira em que o WhatsApp, à época com 38 milhões de usuários no Brasil, foi um campo de batalha, conforme registrou a Folha de S.Paulo (com paywall). Dilma se reelegeu por pouco.
Quatro anos depois, em 2018, eram cerca de 120 milhões de brasileiros no zap. E, naquela campanha, ficou evidente que o PT não estava preparado para enfrentar a avalanche online provocada pela campanha de Jair Bolsonaro — que contou com engajamento legítimo, mas também com desinformação em massa e contas com “comportamento inautêntico”.
Agora, Lula se encaminha para o segundo turno contra Flávio Bolsonaro com o adversário à frente nos votos e, também, mais uma vez, no engajamento digital.
Ontem (7), o presidente se reuniu com jovens deputados eleitos da esquerda que conquistaram votos com suas presenças digitais, como Ana Elisa (PT-MG), que recebeu 524 mil votos, e Luna Zarattini (PT-SP), a petista mais votada em seu estado, com 233 mil votos — e que, há 12 anos, como militante e estudante de ciências sociais da USP, estava lá no Camping Digital.
Lula gravou oito vídeos selfie em apenas oito horas — algo que não tinha feito durante toda a campanha.
A pouco mais de duas semanas do segundo turno, parece que o partido busca finalmente dar mais protagonismo às gerações mais jovens.
Enquanto isso, na campanha de Flávio Bolsonaro, a principal preocupação é frear o clima de “já ganhou”, Fabio MuraKawa, Marianna Holanda e Flávia Maia analisam a seguir.
Paula Bonelli colaborou nesta edição.
Boa leitura.
O PONTO CENTRAL
1. Um freio no ‘já ganhou’
Ainda faltam mais de duas semanas para o segundo turno, mas o mundo político em Brasília já se comporta como se estivesse em transição para um governo Flávio Bolsonaro, Fabio MuraKawa, Marianna Holanda e Flávia Maia escrevem no JOTA PRO Poder.
Por que importa: O resultado das urnas desencadeou uma corrida de partidos, políticos e grupos de interesse em direção ao candidato do PL.
- Até no Supremo Tribunal Federal, onde o novo equilíbrio de forças no Congresso acendeu um sinal de alerta, há movimentos para reduzir áreas de atrito com o bolsonarismo.
A velocidade da reorganização do Centrão é um sintoma claro do novo momento.
- União Brasil e PP, que haviam mantido neutralidade no primeiro turno, declararam apoio a Flávio.
- O Republicanos fez o mesmo ontem (7), e o Podemos caminha na mesma direção.
- Romeu Zema (Novo) declarou apoio já na segunda (5).
- Ronaldo Caiado (PSD), que passou boa parte da campanha atacando Flávio, também aderiu.
- Gilberto Kassab decidiu liberar o partido para que cada liderança faça sua escolha de acordo com seus interesses regionais.
O movimento já ultrapassa a disputa pelo segundo turno.
- Nos bastidores, cresce a especulação sobre a montagem de um eventual governo Flávio.
- Para a Fazenda, circulam nomes como Roberto Campos Neto, Marcelo Kayath e Mansueto Almeida. Daniella Marques, também mencionada para a área econômica, passou a ser cotada para comandar uma estrutura social mais ampla.
- Para a pasta da Agricultura aparecem Pedro Lupion e Ronaldo Caiado.
- Para a Segurança Pública, é cotado o recém-eleito senador Guilherme Derrite.
- Há conversas sobre outros ministérios e um número ainda maior de interessados em cargos, o que alimenta especulações nos bastidores e no noticiário.
⚡ Choque de realidade: É um movimento típico de Brasília quando o poder parece estar mudando de mãos.
- A eleição deixou muita gente sem mandato e produziu uma nova maioria política no Congresso.
- Parte desse contingente já procura espaço em um eventual governo.
- Partidos que até poucos dias atrás mantinham distância agora buscam demonstrar proximidade.
🔮 O que observar: A campanha de Flávio tenta conter a euforia.
- Nas reuniões internas, a orientação é repetir que a eleição não está ganha e que o PT não pode ser subestimado.
- O receio é produzir uma atmosfera de vitória antecipada, desmobilizar eleitores e estimular uma reação do adversário.
- Também por isso Flávio não pretende anunciar ministros antes do segundo turno.
- Além de evitar disputas prematuras, há uma vantagem política na indefinição.
- Enquanto vários aliados se enxergarem como potenciais integrantes do governo, todos terão motivos para permanecer mobilizados na campanha.
UMA MENSAGEM DO JURISPRUDENTE
Aferição de idade online desafia empresas e reguladores

A aplicação do ECA Digital e a ampliação das competências da ANPD (Autoridade Nacional de Proteção de Dados) levantam o desafio de proteger crianças e adolescentes na internet sem gerar insegurança jurídica.
Sim, mas… É preciso verificar a idade dos usuários sem criar mecanismos de vigilância massiva.
Panorama: Existe uma complexidade da escolha de ferramentas para estimar a idade, que vão da apresentação de documentos ao uso de dados biométricos.
O tema foi discutido no segundo episódio da segunda temporada do videocast Jurisprudente com Miriam Wimmer, diretora da ANPD.
Acompanhe a entrevista completa no YouTube.
2. Impulso digital

Já Lula deixou o primeiro turno politicamente mais isolado, MuraKawa, Holanda e Maia prosseguem na análise.
- Em reunião com deputados eleitos do PT, na terça (6), o discurso foi de lutar até o fim e buscar a virada.
- O próprio presidente tem cobrado reação da campanha e mais organização, sobretudo nas redes sociais.
Sim, mas… Há poucas ideias realmente novas.
- A estratégia permanece concentrada em reduzir a abstenção, principalmente entre eleitores de baixa renda e no Nordeste, e ampliar ao máximo a vantagem de Lula na região.
🔭 Panorama: A ex-senadora Kátia Abreu, ruralista que aderiu ao PT e coordena a campanha no Tocantins, resumiu na reunião do partido o sentimento geral de que a campanha de Lula neste ano foi comandada por “paulistas sem voto”.
- O comando também será mais descentralizado, com lideranças como Fernando Haddad, Gleisi Hoffmann e governadores aliados, sobretudo os três reeleitos no Nordeste, assumindo maior responsabilidade pela mobilização nos estados.
Nas redes, a intenção é dar mais autonomia a parlamentares e influenciadores jovens, entre eles Luna Zarattini, Camila Jara e Thiago dos Reis, sem esperar que todo o conteúdo parta de um comando central.
- É uma tentativa de corrigir uma das principais críticas feitas internamente depois do primeiro turno, a dificuldade da campanha em competir com a direita no ambiente digital.
Ministros e dirigentes repetem que ainda há jogo a ser jogado.
Nos bastidores, porém, o ambiente é bem menos confiante.
- Há aliados que já consideram a situação extremamente difícil e depositam as esperanças na capacidade de Lula de mobilizar seu eleitorado e produzir uma mudança de ambiente até o dia 25.
- Enquanto o PT procura o caminho para uma reação, boa parte de Brasília já começou a fazer contas para o dia seguinte.
3. A palavra do plenário

O ministro Nunes Marques deve levar ao plenário do Supremo o julgamento da revisão criminal de Jair Bolsonaro, Flávia Maia registra no JOTA.
- O caso será avaliado somente após o segundo turno.
- O ministro tem dito a interlocutores que o julgamento poderia interferir no processo eleitoral.
🔭 Panorama: Estão em andamento no STF duas revisões criminais sob o comando de Nunes Marques.
- Na primeira, o PGR se posicionou contrário à anulação da sentença de Bolsonaro, alegando que a condenação está lastreada em provas e que a defesa não apresentou mudanças significativas que justificassem qualquer alteração.
- Ainda não houve manifestação na segunda.
Está sendo avaliada na Corte também a possibilidade de julgar a ação da Lei da Dosimetria antes da revisão criminal, e a regra poderia ser aplicada a Bolsonaro.
- O procurador-geral da República, Paulo Gonet, já deu sinais de que deve se manifestar pela constitucionalidade da dosimetria.
- Em junho, ele se posicionou de forma contrária ao pedido de suspensão temporária da norma que reduz as penas e flexibiliza a progressão de regime para os casos do 8 de Janeiro.
- Dessa forma, interlocutores do STF dizem que não está descartada a hipótese de a PGR e ministros acolherem a proposta de diminuição da pena de Bolsonaro.
4. A bancada do agro

A bancada ruralista reelegeu quase 71% dos integrantes que tentavam permanecer na Câmara, Daniel Marques Vieira escreve no JOTA.
- Dos 248 deputados da FPA (Frente Parlamentar da Agropecuária) que tentaram a reeleição, 176 conseguiram.
🔭 Panorama: Com mais quatro eleitos — suplentes que assinaram ficha de filiação —, a bancada garante 180 membros na próxima legislatura, mas precisará de novos aliados para manter seus atuais 299 deputados.
- O desempenho superou a média de reeleição da Câmara neste ano.
- O presidente da frente, Pedro Lupion (Republicanos-PR), que também vai para mais um mandato, projetou um número ainda maior de membros da bancada.
- “A nossa expectativa é chegar a 312 membros com as novas inscrições de parlamentares de centro, direita e ligados ao agro e setor produtivo”, declarou.
- Apesar da boa situação, a FPA perderá cerca de 17 deputados que não concorreram à Câmara.
- Entre eles, articuladores como Arnaldo Jardim (relator de leis sobre minerais críticos e combustíveis do futuro).
- Também saem Zucco, eleito governador do RS, e Sandro Alex e Patrus Ananias, derrotados em disputas estaduais.
Já no Senado, a FPA perderá 23 senadores: 8 derrotados, 2 eleitos governadores e 13 que não disputaram.
- Compensará a baixa com a chegada de 18 deputados filiados à frente que foram eleitos senadores, gerando um saldo negativo de 5 nomes.
- Foram reeleitos: Marcio Bittar, Lucas Barreto, Carlos Portinho, Delegado Alessandro, Rogerio Carvalho e Eduardo Gomes.
- A situação da frente segue confortável porque a maior parte de seus membros compõe o terço do Senado com mandato até 2030.
5. Precatórios e segurança jurídica

Os presidentes do CNJ, Edson Fachin, e do Banco Central, Gabriel Galípolo, receberam propostas para regulamentar a cessão de precatórios, Flávia Maia informa no JOTA.
- Entre os pontos principais estão a limitação da venda de pré-precatórios, escritura pública em cartório para precatório constituído, um banco nacional com informações sobre os títulos e o registro eletrônico por entidades ligadas ao Banco Central.
- O ministro Gilmar Mendes tem sido uma voz a favor de mudanças na expedição de precatórios, em especial do setor sucroalcooleiro, após revelações relacionadas ao caso Master.
Por que importa: Resultado de uma parceria entre CNJ e BC para coibir fraudes em precatórios, a nota técnica será avaliada pelo CNJ em sessão virtual entre 8 e 16 de outubro
- Pela proposta, os cartórios lavram as escrituras e garantem a validade jurídica dos títulos, enquanto as registradoras do BC cuidam da rastreabilidade e prevenção de duplicidades.
- Já a gestão da Central Nacional de Precatórios fica com o CNJ.
- Os tribunais conferem a eficácia judicial, homologam, pagam, suspendem e baixam o crédito.
6. Cripto na pauta do BC

As regras para criptoativos ganharam espaço na agenda do Banco Central em 2026, Gabriel Shinohara informa no JOTA PRO Poder.
🔭 Panorama: O órgão editou 155 normas nos primeiros três trimest de 2026, contra 169 no mesmo período de 2025, segundo levantamento do JOTA.
- No mercado de cripto, a pauta tem sido dominada pelo detalhamento do arcabouço iniciado ano passado — foram 16 novas regras até setembro.
- Incluem prestação de informações (Res. BCB 574), enquadramentos prudenciais (Res. BCB 580) e a retenção de 24 horas em operações para carteiras autocustodiadas ou para o exterior a partir de 1º de janeiro de 2027 (Res. BCB 584).
As Prestadoras de Serviços de Ativos Virtuais (PSAVs) têm até 30 de outubro para pedir autorização de funcionamento.
- Também seguem em debate a inclusão de cripto no Banking as a Service (BaaS) e o Marco Legal das Stablecoins.
- O Comitê de Estabilidade Financeira apontou que os ativos virtuais são o principal meio de escoamento de recursos de fraudes cibernéticas.
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Resultado das urnas gerou corrida de partidos, políticos e grupos de interesse em direção ao candidato do PL