Uma decisão judicial em saúde pode definir o acesso de um paciente a um medicamento, procedimento ou nova tecnologia. Muitas vezes, precisa ser tomada em poucas horas. Por trás de uma pergunta aparentemente simples – conceder ou não determinado tratamento – existem questões clínicas, científicas, regulatórias e econômicas que dificilmente podem ser avaliadas isoladamente.
Um dado apresentado pela conselheira Daiane Nogueira de Lira, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), durante o XIII Congresso Jurídico de Saúde Suplementar, realizado em Brasília pelo Colégio Permanente de Diretores de Escolas Estaduais da Magistratura (Copedem) em 11 de setembro, dimensiona o desafio.
Em análise de 78 acórdãos do Supremo Tribunal Federal (STF) relacionados à atuação dos Núcleos de Apoio Técnico do Poder Judiciário (NatJus), Daiane observou que todos os casos de saúde pública examinados contavam com nota técnica – ainda que, em algumas situações de urgência, referente a caso análogo. Nos processos de saúde suplementar analisados, nenhum tinha nota técnica do NatJus.
Não se trata de transferir a decisão do magistrado para uma equipe técnica de especialistas em saúde. Trata-se de utilizar esse recurso para oferecer elementos que permitam à magistratura exercer sua função com mais informação.
A necessidade desse apoio aumenta à medida que a medicina se torna mais complexa. Novos medicamentos, terapias celulares, terapias gênicas e outras tecnologias chegam ao sistema acompanhados de evidências que precisam ser avaliadas quanto à qualidade e à aplicabilidade ao paciente concreto.
Evidência científica, portanto, não pode ser reduzida a uma resposta binária: existe ou não existe. É necessário perguntar qual é a qualidade dessa evidência, para quais pacientes ela foi produzida, quais resultados foram observados e em que medida podem ser aplicados ao caso que chegou ao Judiciário.
No mesmo evento, Thaissa Matos, gerente de Relações Institucionais da Rede D’Or/SulAmérica, trouxe uma contribuição importante para esse debate: grande parte da informação necessária já é produzida. O desafio é organizá-la e fazer com que chegue de maneira estruturada à decisão – um desafio que está longe de ser trivial.
Uma controvérsia envolvendo determinada tecnologia pode depender da história clínica e da prescrição médica, das evidências científicas disponíveis, da situação regulatória perante a ANS, do registro sanitário na Anvisa e, finalmente, da interpretação jurídica. Essas informações têm origens e funções diferentes.
Ciência, clínica, regulação e Direito não precisam ocupar o lugar umas das outras. Precisam conversar, sem que isso se confunda com indução ou interferência. Estamos falando de subsídio técnico à tomada de decisão.
Esse processo já está em construção. A própria Daiane mostrou que o CNJ trabalha no aperfeiçoamento do e-NatJus e na integração de bases de informação para apoiar as equipes técnicas. Segundo ela, menos de dois anos depois de o Conselho passar a estimular a criação de estruturas voltadas à saúde suplementar, já existem NatJus atuando nesse segmento em 24 estados, embora ainda não exista uma estrutura nacional específica para o segmento.
Nos planos de saúde, os recursos que financiam a assistência vêm, em última instância, das famílias e das empresas que contratam os planos. Decisões que ampliam despesas de maneira permanente produzem efeitos sobre esse conjunto de beneficiários. Sustentabilidade, portanto, não é uma questão exclusiva das operadoras. É uma condição para preservar o acesso e o próprio equilíbrio do sistema.
Qualificar a judicialização não é responsabilidade apenas do Judiciário. O processo começa antes, com uma prescrição médica adequadamente fundamentada, passa pela qualidade das informações apresentadas por prestadores, operadoras e advogados e pela disponibilidade das evidências científicas e informações regulatórias, até chegar ao apoio técnico oferecido ao magistrado.
O avanço dos NatJus na saúde suplementar oferece uma oportunidade para construir uma ponte mais sólida entre ciência e Direito. O juiz continuará decidindo, o médico seguirá responsável pelo cuidado do paciente, e a ANS manterá sua função regulatória. Cabe aos especialistas continuar avaliando as evidências que subsidiam esse processo.
O desafio é fazer com que essas diferentes competências conversem quando uma decisão precisa ser tomada. Diante da crescente complexidade da saúde, ampliar o acesso à informação técnica qualificada ajuda a produzir decisões mais bem fundamentadas para o paciente e para um sistema que precisa continuar atendendo milhões de beneficiários.
Aproveite as Melhores Ofertas do Prime Day
Descontos exclusivos em notebooks, celulares, livros, eletrônicos, escritório, casa inteligente, Alexa, Kindle, SSD, monitores, impressoras e muito mais.
⚡ Ofertas por tempo limitado. Os estoques podem acabar rapidamente.
🛒 Acessar Ofertas do Prime DayTransparência: O SpedTax participa do Programa de Associados da Amazon e pode receber comissão por compras qualificadas realizadas por meio deste link, sem custo adicional para você.
Apoio técnico pode qualificar decisões sobre tratamentos e tecnologias na saúde suplementar