Na formulação que Thomas Carlyle atribuiu a Edmund Burke, havia um “quarto poder” na galeria dos repórteres, mais importante que os três estamentos do Parlamento. A imprensa não escolhia o voto do cidadão, mas definia o ambiente em que ele se formava: quais fatos seriam conhecidos, quais personagens ouvidos, quais questões debatidas.¹ Esse poder começa antes do voto. Quem organiza a visibilidade participa da formação das alternativas entre as quais a sociedade escolhe.
A escala mudou
Vinte anos atrás, esse poder remetia a jornais, emissoras e redações. Hoje, parte decisiva da circulação da informação depende de sistemas que selecionam conteúdos de forma personalizada e aprendem com nossas reações. A pergunta que as eleições de 2026 colocam é simples: quanto poder sobre a formação da opinião pública entregamos às empresas que administram esses sistemas?
Em 2006, a propaganda de deputado federal na TV cabia em dois blocos de 25 minutos, três vezes por semana, divididos entre partidos e centenas de candidatos.² Naquele ano, Paulo Maluf liderou em São Paulo com 739.827 votos, 3,56% dos válidos; em Minas, Rodrigo de Castro liderou com 294.199, 3,00%.³
Em 2026, Lucas Pavanato recebeu 3.038.438 votos em São Paulo, 12,82% dos válidos, e Nikolas Ferreira, 3.119.318 em Minas, 27,19%. São fatias 3,6 e nove vezes maiores que as de 2006. Em São Paulo, Erika Hilton recebeu 1.596.472 votos, cerca de 6,7%.⁴
Os exemplos atravessam campos ideológicos. A questão não é qual partido dominou a internet, mas a capacidade de algumas candidaturas concentrarem uma parcela extraordinária da atenção e do voto. Os números não medem o efeito da recomendação algorítmica, mas são compatíveis com uma vantagem ligada à presença digital.
A mudança acompanha os hábitos de informação. Segundo o Digital News Report 2026, 53% dos brasileiros usam redes sociais para se informar semanalmente, contra 44% que usam a televisão; em 2013, eram 47% e 75%.⁵
O editor invisível
Uma redação decide a manchete e a ordem do telejornal. Um sistema de recomendação decide o que aparece primeiro, o que volta a aparecer e o que alcança quem nunca procurou aquele conteúdo. O algoritmo exerce funções de diretor de jornalismo, sem apurar fatos nem responder pelas escolhas.
E suas regras são comerciais. Em 2025, a publicidade respondeu por 97,6% da receita da Meta.⁷ A atenção retida é o produto. Yanis Varoufakis sustenta que as grandes plataformas deixaram de competir em mercados e passaram a controlar territórios digitais, cobrando de anunciantes, comerciantes e candidatos o pedágio de existir dentro deles.⁸ A tese é discutida, mas ilumina uma assimetria: quem disputa visibilidade não conhece as regras pelas quais ela é distribuída. Shoshana Zuboff descreveu o outro lado: as plataformas sabem cada vez mais sobre nós; nós, cada vez menos sobre elas.⁹
É aqui que o bizarro ganha vantagem. Um conteúdo prende a atenção porque informa, mas também porque irrita, assusta ou oferece a satisfação de atacar um adversário. A medida comercial de sucesso não distingue essas experiências. Brady e colegas mostraram que recompensas à indignação aumentam a indignação seguinte.¹⁰
Uma auditoria do algoritmo do Twitter verificou que a ordenação por engajamento amplificava conteúdo emocional e hostil ao grupo adversário, sem que os usuários declarassem preferi-lo.¹¹ Um experimento publicado na Nature em 2026 mostrou que o feed algorítmico do X deslocou opiniões políticas em relação ao feed cronológico.¹² Os efeitos variam, mas a literatura permite afirmar que esses sistemas influenciam opinião e comportamento.
Governar para o feed
Burke defendia, em 1774, que o representante deveria exercer julgamento, e não obedecer às inclinações imediatas de seus apoiadores.¹³ A lógica da reação contínua pressiona na direção oposta: o representante é premiado por manter a audiência mobilizada e oferecer novos conflitos. Resolver um conflito pode render menos atenção do que mantê-lo vivo.
A política como arte do possível, feita de negociação e soluções incompletas, passa a ser encenada para a própria audiência como fraqueza. Isso não se resolve com uma defesa automática de quem se apresenta como moderado: o critério democrático é a capacidade de justificar decisões, responder por elas e entregar resultados.
Há uma consequência que costuma ficar fora do debate: a separação crescente entre a gestão de uma política pública e a percepção que a sociedade tem dela. A gestão segue um ciclo longo, de diagnóstico, implementação, monitoramento e avaliação, com resultados difusos e estatísticos. A percepção segue o que circula, e o que circula é selecionado pela capacidade de gerar reação. Uma falha isolada num hospital pesa mais que a queda consistente da mortalidade infantil. Uma obra parada vira vídeo; mil obras entregues viram estatística.
Os riscos são dois. O primeiro é a distorção das prioridades: educação básica, saneamento e prevenção em saúde perdem atratividade por serem as políticas mais importantes e menos espetaculares. O segundo é a erosão da accountability: a evidência perde força diante da narrativa, e a gestão competente pode ser punida enquanto o confronto bem encenado é premiado. Weber distinguia a ética da convicção da ética da responsabilidade.¹⁴ O feed premia a primeira em sua forma mais teatral e esconde a segunda.
O pleito desigual
A Justiça Eleitoral não ficou inerte. As resoluções do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) passaram a tratar de desinformação, impulsionamento e inteligência artificial.¹⁵ O esforço é real, mas reativo: age depois que o conteúdo foi publicado e denunciado, e o tempo da decisão judicial não é o tempo da viralização. E a regra incide sobre a postagem e quem a publicou, não sobre o sistema que decidiu quantas pessoas a veriam.
O horário eleitoral gratuito tinha defeitos, mas distribuía um bem escasso segundo critérios públicos. No feed, a visibilidade é distribuída pelo engajamento e pela capacidade de produzir conteúdo em escala o ano inteiro, capacidade muito desigual entre pessoas e partidos. A desigualdade de alcance produz desigualdade de percepção, organizada menos pelas propostas ou pela trajetória dos candidatos do que pela performance: a dancinha, o corte, a encenação do confronto. Balandier mostrou que o poder sempre se pôs em cena.¹⁶ A novidade é que o palco tem dono, e o critério que define quem ocupa seu centro é comercial.
Uma regulação proativa deslocaria o foco do conteúdo para a distribuição: transparência sobre impulsionamento e recomendação de conteúdo político, bibliotecas de anúncios atualizadas, acesso a dados para a Justiça Eleitoral e pesquisadores, deveres de cuidado sobre como os sistemas amplificam candidaturas. Não se trata de decidir o que pode ser dito, mas de tornar auditável quem decide o que será visto.
Há também uma dimensão de soberania. A Constituição exige controle nacional sobre o capital e a direção editorial das empresas jornalísticas e de radiodifusão.¹⁷ Hoje, grupos estrangeiros administram as plataformas por onde circula parte relevante do debate político brasileiro e definem sozinhos suas regras de recomendação. A nacionalidade do controlador não resolve tudo; soberania, aqui, é a capacidade democrática de conhecer e fiscalizar os mecanismos que organizam a informação.
Quem paga a conta
As consequências não são distribuídas igualmente. Quem depende da escola pública, do Sistema Único de Saúde (SUS), do saneamento ou de renda para comprar comida tem menos alternativas quando a política perde a capacidade de formular e executar soluções. Quem pode pagar amortece os efeitos. Quem não pode fica exposto a eles.
As urnas continuam registrando decisões livres. Mas o terreno em que essas decisões se formam está sendo reorganizado. A galeria dos repórteres ganhou a escala, a velocidade e a intimidade do feed. Saber quem exerce esse novo quarto poder, segundo quais regras distribui atenção e perante quem responde é hoje uma questão central sobre a nossa capacidade de decidir coletivamente.
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Por quase dois séculos, a imprensa organizou o palco do debate público; hoje, o algoritmo decide o que viraliza, e o bizarro costuma ter vantagem