A reaproximação entre Lula e Davi Alcolumbre vai, por enquanto, até a página dois. Após uma longa era do gelo na relação entre os presidentes da República e do Senado, eles voltaram a conversar e se reuniram nesta quarta-feira (12/8) por cerca de duas horas no Palácio da Alvorada, oito dias depois de um encontro na casa do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
O diálogo foi restabelecido, mas as mágoas que levaram ao rompimento ainda não cicatrizaram. Lula não engoliu a rejeição de Jorge Messias pelo Senado. Alcolumbre, por sua vez, continua se sentindo pouco reconhecido pelo Palácio do Planalto.
Se a reunião da semana passada serviu para quebrar o gelo, a desta quarta teve um caráter mais prático. Lula precisa de Alcolumbre para destravar pautas de interesse do governo no Senado. A mais urgente é a medida provisória que eliminou a chamada “taxa das blusinhas”, que perde a validade em 8 de setembro e terá sua comissão mista instalada nesta quarta. Também estão no radar projetos como o fim da escala 6×1, a PEC da Segurança Pública e a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.
O ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, saiu do Alvorada afirmando que “a institucionalidade está reconstruída” e que “tudo entrou na conversa”. Isso não significa, porém, que Alcolumbre esteja disposto a acelerar toda a agenda do Planalto.
Sobre a 6×1, Guimarães disse ter combinado com o presidente do Senado que serão ouvidos senadores, líderes do governo e da oposição. “É uma pauta tão importante que não pode também ser tratada assim, de uma maneira, não digo açodada porque ela espera há muito tempo, mas como se fosse uma coisa comum”.
Alcolumbre está mais alinhado ao empresariado na pauta da redução da escala de trabalho. Mas governistas ficaram otimistas com a reaproximação, ainda que tímida, entre os dois. Há uma avaliação de que ao menos as votações da MP da taxa das blusinhas e da PEC da Segurança pública devem andar – a equipe técnica do Ministério da Justiça já está a postos para a votação. Esta seria uma sinalização do presidente do Senado, que manteve na sua gaveta todas as propostas importantes ao governo neste ano.
Jogo duro até a eleição
A diferença de temperatura aparece também na forma como os dois lados descrevem a retomada. Interlocutores de Lula relatam encontros descontraídos e dizem enxergar uma reaproximação efetiva. Aliados de Alcolumbre são mais cautelosos. Afirmam que ele continuará jogando duro e que a volta do diálogo não significa o retorno da antiga parceria com o Planalto.
Um interlocutor de Alcolumbre diz que ele deve seguir no fio da navalha com o governo até o primeiro turno. Se Lula estiver muito bem posicionado, pode entregar a votação da PEC 6×1, num gesto ao chefe do Executivo – e, assim, ele chegaria mais fortalecido com uma novidade para o segundo turno.
Fato é que, dos dois lados, parece haver entendimento de que a PEC não deve ser votada antes da eleição. Na melhor das hipóteses, ele encaminha para a CCJ, mas tampouco se comprometeu com isso.
Feridas abertas
Por trás da cordialidade permanecem as feridas abertas pela indicação de Messias ao Supremo. Alcolumbre defendia Rodrigo Pacheco (PSB-MG) e considera que a postura de colaboração que manteve desde o início do governo deveria ter pesado para que Lula atendesse à sua preferência. Do outro lado, o petista ainda atribui ao presidente do Senado responsabilidade pela derrota de Messias, rejeitado em 29 de abril por 42 votos a 34.
Na conversa da semana passada, Alcolumbre apresentou sua versão diretamente a Lula. Disse que sempre colaborou com o governo, que havia alertado previamente que Messias não reunia os votos necessários para ser aprovado e negou ter trabalhado para derrubar a indicação. Lula ouviu. Interlocutores do presidente dizem, porém, que ele apenas fingiu acreditar. No Planalto, permanece a convicção de que a derrota de Messias teve as digitais de Alcolumbre.
E o assunto pode voltar à mesa. Lula pretende insistir no nome de Messias para o Supremo caso seja reeleito. Uma nova indicação colocaria novamente diante de Alcolumbre exatamente o tema que produziu o maior rompimento entre os dois. A trégua atual, portanto, ainda terá de sobreviver não apenas às votações no Senado, mas à possibilidade de reabertura do conflito que foi seu estopim.
Unidos no Amapá
Há, no entanto, um interesse eleitoral concreto aproximando os dois. No Amapá, Lula e Alcolumbre estão no mesmo campo. O presidente do Senado apoia a reeleição do governador Clécio Luís (União), enquanto Randolfe Rodrigues (PT), líder do governo Lula no Congresso, integra a mesma aliança na disputa pelo Senado. As divergências entre Planalto e Senado convivem, assim, com a necessidade de preservar um arranjo político comum no estado.
E é justamente em casa que Alcolumbre enfrenta uma ameaça incomum para um dos políticos mais poderosos do país. Doutor Furlan, principal adversário de seu grupo, lidera com ampla vantagem a disputa pelo governo: no Paraná Pesquisas de julho, aparece com 65,5%, contra 26,3% de Clécio. Para o Senado, sua esposa, Rayssa Furlan, lidera, enquanto Randolfe disputa a segunda vaga.
Uma derrota do grupo governista significaria perda de poder e representatividade de Alcolumbre em seu próprio estado e também um revés para Lula. É um interesse comum, ainda que, por enquanto, não seja suficientemente forte para apagar as mágoas.
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diálogo foi restabelecido, mas as mágoas que levaram ao rompimento ainda não cicatrizaram