“Havia muito dinheiro em jogo e um forte desejo de contribuir para um mundo melhor. Os gestores de ativos ofereceram uma forma de fazer isso por meio dos fundos ESG”.¹ A frase de Philippe van der Beck, professor assistente e pesquisador da Harvard Business School, sintetiza o entusiasmo que marcou a ascensão do ESG (boas práticas ambientais, sociais e de governança).
Esse entusiasmo perdeu força. O cenário que antes parecia promissor tornou‑se mais belicoso e polarizado, enfraquecendo a capacidade de um avanço consensual.
Assim sendo, de um lado, vive-se uma fase do ESG marcada por críticas, resistências políticas e retrocessos regulatórios, especialmente nos Estados Unidos; enquanto de outro, centrada na Europa, países da América Latina e Ásia, observa-se um movimento propositivo, no qual empresas, investidores e reguladores seguem avançando na construção da sustentabilidade corporativa e acreditando na sua contribuição positiva.
A polarização em torno do ESG deixou de ser tendência e virou realidade. O fenômeno aparece de forma explícita em disputas políticas no âmbito dos EUA, nas quais setores conservadores passaram a associar o termo a uma suposta agenda ideológica que extrapolaria o papel tradicional das empresas ligadas à economia liberal.
Além disso, fundos de investimento têm sido pressionados a justificar publicamente suas estratégias de sustentabilidade e alguns estados chegaram a restringir contratos com instituições financeiras que adotam critérios ESG. Pior: alguns players do mercado norte-americano questionam a real capacidade das métricas ESG de refletir riscos materiais, apontando para problemas de padronização, comparabilidade e, em alguns casos, para práticas de greenwashing que fragilizaram a credibilidade do ESG.
No campo prático, a Bloomberg Linea² destaca que grandes empresas norte-americanas abandonaram as políticas de diversidade na escolha de postulantes a cargos em Conselhos de Administração, responsáveis por convencer a companhia a incorporar os pilares ESG em sua estratégia.
A informação tem como base dados da S&P 100, registrando um recuo de 61 empresas de diferentes áreas: tecnológica, financeira, de saúde, alimentação, transporte etc. Uma exceção é a Microsoft que continua em busca de “mulheres qualificadas e profissionais de grupos minorizados” em seu processo de recrutamento e seleção.
O discurso de um ESG eivado por motivações políticas tem passado pela lupa da pesquisa nas academias. Para muitos pesquisadores, a realidade metodológica do ESG é complexa e heterogênea, como apontado no artigo “The Standardization Illusion: A Critical Review of ESG Rating Methodologies and Their Structural Limits”, de Rémi Guimard, pesquisador francês.
Ele realizou uma revisão da literatura sobre o ESG, analisando o quadro regulatório das classificações e comparou metodologias adotadas por diferentes agências, promovendo comparações entre dupla materialidade e materialidade financeira, apontando possíveis divergências, capazes de comprometer a comparabilidade, além de lançar uma dúvida fundamental: É possível reduzir a complexidade da sustentabilidade a uma única pontuação comparável?
Na conclusão, Guimard afirma que “As classificações ESG surgiram de uma ambição louvável: tornar a sustentabilidade mensurável, comparável e acionável nos mercados financeiros. Elas conseguiram aumentar a conscientização sobre fatores extra financeiros e direcionar fluxos de capital significativos para práticas mais responsáveis. No entanto, como este artigo demonstra, não cumpriram sua promessa de padronização e objetividade”.³
Independentemente das dúvidas sobre os critérios de reportes ESG, a União Europeia segue caminho próprio e tem demonstrado um equilíbrio, mantendo-se distante de debates políticos e buscando a viabilidade métrica. Um exemplo dessa opção são os pacotes Omnibus, que simplificaram a Diretiva de Relatórios de Sustentabilidade Corporativa (CSRD) e Diretiva de Due Diligence de Sustentabilidade Corporativa (CSDDD) no sentido de ganhar mais transparência e eficiência e de preservar a estrutura de sustentabilidade da UE.
Cada vez mais sujeitos aos efeitos severos do clima, com o registro de altas temperaturas e incêndios incontroláveis, como deste verão, causando perda de vidas humanas, coberturas florestais e infraestruturas, os países da UE estão diante da necessidade de adotar uma transição sustentável, que vai muito além da diretriz regulatória pelo forte apelo público, político e de sobrevivência.
A exemplo do bloco europeu, o campo ESG segue avançando de maneira propositiva em diversas frentes no sentido de produzir métricas transparentes, mas esta situação não dependerá apenas de lideranças corporativas. A política vem ganhando um papel relevante de sustentação do ESG, como nos casos do Reino Unido, Canadá, Austrália e mercados emergentes como a Índia — que continuam aperfeiçoando arcabouços de regulação e divulgação, buscando maior padronização por meio de iniciativas como o ISSB (International Sustainability Standards Board). São governos comprometidos com os princípios ESG, que foram eleitos recentemente e devem cumprir mandatos até 2030, o que revela uma garantia extra ao ESG, conforme analisa o Corporate Governance Institute.4
Fora desses limites, os critérios ESG enfrentam uma grande volatilidade, na qual acabam misturando interesses políticos e corporativos, como ocorre nos Estados Unidos e isso se torna um risco que as empresas temem correr, embora exista uma tendência de convergência normativa impulsionada por organismos internacionais.
A forma como cada sociedade internaliza, prioriza e regula essas práticas é profundamente moldada por fatores culturais, históricos e institucionais locais. Diferentes contextos socioeconômicos produzem agendas distintas dentro de um mesmo arcabouço conceitual.
É justamente nesse ambiente fragmentado que o desafio deixa de ser apenas de definir compromissos e passa a ser de fazê-los funcionar dentro da operação. Metas, indicadores, políticas e reportes precisam conversar com áreas distintas da empresa, da alta liderança às equipes responsáveis por dados, controles e execução, sob pena de a agenda ESG permanecer restrita ao plano das intenções.
Por isso, a implementação vem ganhando tanta importância quanto a formulação da estratégia. Consultorias especializadas podem exercer um papel relevante nesse processo, sobretudo ao traduzir exigências regulatórias e referências internacionais para a realidade de cada negócio, organizar prioridades e estruturar rotinas capazes de acompanhar resultados ao longo do tempo.
Não se trata de importar modelos prontos, mas de criar condições para que compromissos ambientais, sociais e de governança sejam incorporados aos processos decisórios e possam ser demonstrados de forma consistente. Em um cenário de volatilidade regulatória e política, essa capacidade de transformar diretrizes em práticas verificáveis tende a ser um dos fatores de maior maturidade da agenda ESG.
No Brasil, ainda teremos eleições este ano e o resultado propiciará maiores ou menores impactos sobre o ESG. Em termos de regulamentação de relatórios ESG, o país sofreu uma reviravolta quando o novo presidente da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) derrubou a obrigatoriedade de as empresas apresentarem este ano seus reportes de sustentabilidade. Em contraponto, o Banco Central do Brasil determinou às instituições financeiras obrigatoriedade no sentido de divulgarem dados sobre suas emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE), com indicadores e metas por setor de atuação (agropecuária, energia, mineração etc.).
Diferentemente de outros modelos regulatórios, a agenda ESG no Brasil incorpora as pautas ambiental e social como elementos indissociáveis do processo de desenvolvimento econômico do país. Isso se explica, em parte, pelas características nacionais: ao mesmo tempo que amplia a relevância do agronegócio, destaca a necessidade da preservação da biodiversidade — com destaque para a Amazônia, Cerrado e Pantanal — fazendo com que a discussão sustentável não possa ser dissociada de temas como inclusão social, geração de emprego e redução de desigualdades sociais.
Dessa forma, a governança ESG no Brasil tende a ser interpretada como vetor de desenvolvimento, mantendo viva a perspectiva original de “fazer o bem para o mundo”, como lembrou de forma apropriada o professor Philippe van der Beck.
[1] https://www.library.hbs.edu/working-knowledge/why-esgs-past-returns-may-not-predict-its-future
[2] https://www.bloomberglinea.com.br/esg/grandes-empresas-dos-eua-abandonam-politicas-de-diversidade-para-formacao-de-conselhos/
[3] https://www.researchgate.net/publication/397998681_The_Standardization_Illusion_A_Critical_Review_of_ESG_Rating_Methodologies_and_Their_Structural_Limits/citation/download
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Polarização nos EUA contrasta com avanços regulatórios na Europa e no Brasil