Lula supera rivais na Globo, mas passa 22 minutos na defensiva sobre corrupção
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Lula supera rivais na Globo, mas passa 22 minutos na defensiva sobre corrupção
Lula GloboO problema é que entrevista eleitoral não é só performance, é também o assunto que fica na cabeça do telespectador após o programa

Na comparação com os candidatos que passaram antes pela bancada da TV Globo, o presidente Lula (PT) se saiu bem na entrevista a César Tralli e Renata Vasconcellos. Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD) tiveram desempenho abaixo do que se espera de quem pretende governar o país. Renan Santos (Missão), apesar de ideias difíceis de vender fora de sua bolha — da bomba atômica à inspiração em Nayib Bukele para a segurança pública —, conseguiu fazer uma entrevista melhor, à sua maneira. 

Lula, com quase 50 anos de vida pública, mostrou mais domínio, mais reflexo e mais recursos. O problema é que entrevista eleitoral não é só performance. É também o assunto que fica na cabeça do telespectador depois que o programa termina.

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E, para Lula, o assunto que ficou foi corrupção. Por quase metade da sabatina, o presidente esteve na defensiva, respondendo sobre o filho Lulinha, o ex-chefe de gabinete Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, e as relações dos dois com a lobista Roberta Luchsinger; sobre as fraudes no INSS, que cresceram e foram descobertas durante seu governo; e sobre as ligações de Jaques Wagner com um empresário citado nas investigações do Banco Master.

Nenhum desses episódios, isoladamente, prova a responsabilidade de Lula. Ele fez questão de repetir isso. O problema eleitoral é outro. Em uma campanha, a percepção costuma chegar muito antes da sentença.

Lula lidou melhor com as próprias dificuldades do que Zema e Caiado. Não se encolheu, não perdeu o raciocínio e, em vários momentos, conseguiu devolver as perguntas. Mas há um limite para o que técnica e experiência conseguem fazer. É difícil sair de uma entrevista com imagem positiva quando a fotografia predominante é a de um presidente passando longos minutos contra as cordas, explicando suspeitas que cercam o filho e aliados próximos.

A diferença de tratamento dado pelo presidente aos personagens também chamou atenção. Lula foi protetor com Lulinha, sobre quem disse acreditar na inocência, e com Wagner, cujo comportamento afirmou não poder colocar sob suspeita com base em ilações.

Com Marcola, foi bem menos cuidadoso. Embora tenha dito que o considera quase um filho, reconheceu que o comportamento do ex-auxiliar leva desconfiança para dentro do governo, disse que ele agiu de forma inadequada e que sabe do erro que cometeu. Roberta Luchsinger recebeu o tratamento mais duro. Lula a chamou de “pilantra”. Politicamente, o recado foi claro. O filho e Wagner ficaram sob o guarda-chuva; Marcola, não.

A Lava Jato apareceu como escudo mais de uma vez. Lula lembrou que as pessoas citadas nas investigações ainda não foram julgadas, reivindicou a presunção de inocência e voltou ao roteiro de que aceitou ser preso para provar que Sergio Moro e Deltan Dallagnol haviam construído acusações falsas contra ele. É uma defesa compreensível à luz da própria história, mas também mostra como o presidente ainda reage aos escândalos do presente puxando o debate para as feridas do passado. 

No meio disso, cometeu um sincericídio ao dizer que a Polícia Federal “está vazando coisas” sobre Lulinha para a imprensa e escorregou ao perguntar a César Tralli se, caso pegassem o celular dele, encontrariam apenas coisas corretas.

No INSS, Lula teve argumentos melhores, mas uma resposta política ruim. Repetiu que o esquema começou antes de seu governo, que foi a atual gestão que o investigou e desmontou e que mais de R$ 3,5 bilhões foram devolvidos a aposentados e pensionistas.

O problema veio quando Renata Vasconcellos perguntou sobre os recentes afagos a Carlos Lupi, ex-ministro da Previdência. Lula disse que “a relação política não tem nada a ver com a relação administrativa”. Pode fazer sentido dentro da lógica partidária. Para o eleitor que ainda está decidindo se vota nele, é uma separação bem mais difícil de engolir.

Após mais de 22 minutos de questionamentos sobre corrupção, Lula ironizou Renata quando ela disse que eles iriam, agora, falar de contas públicas. “Eu acho que está na hora de falar porque estava parecendo que eu estava no Ministério Público”, disse o presidente.

O melhor momento da entrevista veio justamente no INSS. Questionado sobre a fila de cerca de 1,3 milhão de pedidos, Lula convidou Renata e Tralli a irem a Brasília na próxima semana e disse que anunciará o fim da fila. Foi o instante em que deixou de explicar problemas e passou a vender entrega. 

Na economia, escapou de uma cobrança mais pesada. Fugiu da pergunta sobre a necessidade de um ajuste fiscal para interromper a trajetória de alta da dívida pública, recorreu aos superávits dos dois primeiros mandatos e disse que a fórmula para reduzir a relação dívida/PIB passa por crescimento e juros menores. 

Não foi confrontado sobre o peso da política fiscal nos juros. Também não teve de responder sobre a quebradeira recente de grandes empresas do varejo, como as Casas Bahia, tema ignorado, mas que seus adversários já começaram a transformar em munição eleitoral.

Saúde praticamente não apareceu. Educação e segurança pública ocuparam pouco espaço. A corrupção dominou a entrevista e, por isso, talvez tenha produzido a principal fotografia política da noite. 

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Lula foi melhor do que os adversários que o antecederam, mas a sabatina mostrou onde sua campanha dói. O fantasma da corrupção continua rondando o PT e o presidente, agora alimentado não apenas pela memória de casos antigos, mas por investigações que alcançam gente muito próxima. 

Para vencer, Lula terá de fazer duas coisas ao mesmo tempo: responder quando for obrigado e conseguir tirar a eleição desse terreno. Porque, se a campanha virar uma longa discussão sobre quem está ou não sendo investigado ao seu redor, pouco adiantará ser o candidato mais experiente na sala.

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