Escolher um hotel é hoje um exercício de comparação. Em poucos minutos, sabemos quantas estrelas ele tem, o que oferece, como foi avaliado por outros hóspedes e quais são seus principais pontos fortes e fracos. Quando a decisão envolve algo muito mais importante – onde cuidar da nossa saúde –, temos muito menos informação disponível.
Como saber se um hospital é realmente bom?
Durante muito tempo, reputação, corpo clínico, estrutura e certificações ajudaram a responder a essa pergunta. São atributos relevantes, mas a qualidade assistencial também precisa ser demonstrada por resultados.
Em outros sistemas de saúde, a divulgação pública de indicadores hospitalares já faz parte da relação entre instituições e sociedade. Nos Estados Unidos, o Centers for Medicare & Medicaid Services (CMS) disponibiliza no Care Compare informações sobre o desempenho de hospitais em mais de 150 medidas de qualidade e utiliza uma classificação geral de uma a cinco estrelas. O reporte de indicadores também integra programas de qualidade associados à remuneração do Medicare.
Outra experiência norte-americana, a do The Leapfrog Group, organização independente sem fins lucrativos, publica informações sobre qualidade e segurança e atribui notas de A a F aos hospitais em seu Hospital Safety Grade. No Reino Unido, o NHS também disponibiliza informações que permitem ao cidadão conhecer e comparar o desempenho dos serviços de saúde.
Não existe, porém, um modelo perfeito de transparência. Indicadores precisam ser contextualizados. Hospitais atendem populações e graus de complexidade distintos. Metodologias evoluem. Comparações exigem rigor. E nenhum conjunto de números é capaz de traduzir sozinho toda a qualidade de uma instituição.
Mas a imperfeição da medida não pode justificar a ausência de transparência.
Em agosto, a Anahp dará um novo passo nessa direção. Pela primeira vez, 52 hospitais associados passarão a divulgar individualmente seus indicadores de qualidade.
A iniciativa não pretende criar um ranking de hospitais, estabelecer uma nova certificação ou competir com outros programas de avaliação e transparência existentes. Ao contrário: quanto mais iniciativas qualificadas tornarem resultados acessíveis à sociedade, mais avançaremos na construção de uma cultura de qualidade. Transparência não é um espaço a ser disputado. É uma cultura a ser ampliada.
O movimento tampouco começou agora. Há mais de 20 anos, hospitais associados à Anahp compartilham indicadores, comparam seu desempenho e aprendem uns com os outros. E talvez o maior valor da transparência esteja justamente nessa trajetória que antecede a divulgação pública.
Em 2009, por exemplo, o tempo porta-balão – importante indicador do atendimento ao infarto agudo do miocárdio – era de 110 minutos entre os hospitais participantes. Em 2025, chegou a 48,17 minutos. No mesmo período, a densidade de incidência de infecção primária de corrente sanguínea associada ao uso de cateter venoso central em UTI adulto caiu de 4,70 para 1,49 a cada mil pacientes-dia. Resultados melhores do que os parâmetros nacionais e internacionais.
Nenhum desses resultados pode ser atribuído isoladamente a um sistema de indicadores. São consequência do trabalho das instituições e de seus profissionais, de protocolos, investimentos e inúmeras mudanças assistenciais. Mas a trajetória ajuda a demonstrar uma premissa fundamental: medir, comparar, aprender e medir novamente cria condições para melhorar.
Esse é um aspecto da transparência que muitas vezes fica escondido. O dado publicado é apenas a parte visível de um processo muito maior. Antes dele, foi necessário aprender a medir, qualificar informações, estabelecer referências, comparar desempenhos, identificar diferenças e transformar resultados em melhoria.
Agora vem uma etapa adicional: compartilhar esses resultados com a sociedade.
Fazer isso exige coragem institucional, mas exige também responsabilidade de quem interpreta a informação. Transparência pressupõe boa-fé. Indicadores não devem ser utilizados para produzir rankings simplistas ou conclusões descontextualizadas sobre instituições complexas. Devem permitir perguntas melhores, estimular aprendizado e ampliar a capacidade de pacientes e sociedade de conhecer a assistência que recebem.
Há também uma dimensão ética nessa escolha. Dar visibilidade aos resultados é reconhecer a dignidade do paciente e seu direito à informação. É admitir que dados sobre qualidade não interessam apenas às instituições que os produzem.
O Programa de Transparência Anahp não nasce como um sistema perfeito ou acabado. Nasce como mais um passo de uma trajetória de duas décadas e com a disposição de evoluir à medida que aprendermos com a própria experiência.
Talvez ainda não consigamos responder à pergunta “quantas estrelas tem o seu hospital?” com a facilidade com que escolhemos um hotel. Nem deveríamos reduzir uma decisão tão complexa a uma única nota.
Mas podemos começar por uma pergunta mais importante: o seu hospital está disposto a mostrar seus resultados?
A qualidade não se declara. Ela se demonstra.
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Novo programa aposta na transparência de indicadores para ampliar a confiança na saúde privada