A busca por um outsider parece ter encontrado um caminho com Augusto Cury (Avante), presidenciável que saltou de 2% para 11% na pesquisa BTG/Nexus ao longo da última semana. O fenômeno ganhou corpo após ganhar exposição na TV, acompanhado por impulsionamentos suspeitos nas redes sociais.
Sua presença no debate da Band — boicotado pelos dois principais candidatos, Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) — e na sabatina do Jornal Nacional ampliou sua visibilidade. Também não se pode descartar o efeito de outro evento organizado pelo Grupo Globo, a série de entrevistas realizadas nos estúdios da rádio CBN.
O candidato — que aparecerá na urna como Escritor Augusto Cury — tem obtido adesão não apenas pela percepção de esgotamento diante do “mais do mesmo” oferecido pela centro-esquerda tradicional e pela direita golpista, mas também por certo cansaço entre os mais jovens com a presença prolongada do PT no poder. Uma pessoa de 24 anos, por exemplo, passou 17 anos de sua vida sob governos petistas. Se esse eleitor se sente insatisfeito — especialmente diante de um mercado de trabalho que exige cada vez mais qualificação e oferece cada vez menos retorno financeiro—, torna-se compreensível a busca por uma terceira via.
Cury, escritor de livros de autoajuda, cai como uma luva como presidenciável para os nativos da era das redes digitais. Acostumados ao imediatismo e à superficialidade, devem acreditar que um salvador da pátria, candidato por um partido pequeno, será capaz de ajeitar os problemas estruturais do país. Soberania, democracia e crescimento econômico são apenas palavras ao vento capturadas por chavões.
Entre os eleitores de 16 a 24 anos, faixa que antes pendia para Renan Santos (Missão), Cury alcança na pesquisa expressivos 22% das intenções de voto. Ele situa-se, portanto, próximo a Lula (25%), embora ainda bastante atrás de Flávio Bolsonaro, que reúne 32% dos votantes mais jovens.
Se a candidatura de Renan não vingar — o ministro do TSE Dias Toffoli suspendeu a propaganda, a participação em debates e o acesso ao fundo eleitoral por falta de registro de endereços de sites, blogs, redes sociais e aplicativos de mensagens usados na campanha —, a tendência é que Cury vire o candidato da juventude na esperança de (para fazer um trocadilho superficial) curar o Brasil.
Porém, uma análise detalhada da pesquisa BTG/Nexus coloca em dúvida a capacidade de Cury superar Flávio Bolsonaro em uma eventual disputa de segundo turno contra Lula. Isso porque a proporção de bolsonaristas e lulistas convictos chega a 28% e 25% respectivamente. Assim, parece improvável que haja uma migração de votos do candidato do PL, que hoje reúne 33% das intenções de voto na pesquisa estimulada, e até mesmo do PT (Lula lidera com 39%) superior a 10 pontos percentuais para Cury, o que é necessário para que ele atinja o empate técnico com Flávio Bolsonaro.
Ainda assim, Cury pode ter um mérito nada desprezível nesta corrida presidencial: obrigar os dois principais candidatos a se submeterem a um escrutínio público mais duro e a debaterem propostas em vez de se engajarem no que parece aos olhos do eleitor indeciso uma competição para ver quem está menos implicado por escândalos de corrupção, num Fla-Flu chamado Lulinha contra Rachadinha Master.
Não que suas próprias propostas sejam necessariamente razoáveis, mas elas parecem mais articuladas e palatáveis aos órfãos da polarização do que as de outros pretensos outsiders, em particular Renan Santos e Pablo Marçal (PRTB), o qual estaria ajudando Cury a se impulsionar nas redes e cuja candidatura permanece sub judice, já que ele está inelegível. Já Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), embora tenham experiência como governadores, não empolgam.
Cury, ao que tudo indica, atrai principalmente eleitores que votariam em branco ou nulo. Sem ele, em um eventual segundo turno, esse grupo tenderia majoritariamente à abstenção, o que favoreceria a candidatura da situação. Não vejo Cury apoiando Flávio Bolsonaro em um segundo turno; ainda assim, considerando que ele construiu fortuna em um discutível mercado de livros de autoajuda e em outro igualmente discutível mercado de desenvolvimento de competências socioemocionais para crianças — no qual a metodologia científica parece secundária diante de discursos bastante apelativos —, não me surpreenderia se a chamada terceira via, mais uma vez, acabasse funcionando como linha auxiliar do bolsonarismo.
Em um cenário hipotético em que Cury se tornasse presidente, o resultado mais provável seria o enfraquecimento ainda maior dos partidos — uma possibilidade recentemente apontada pelo ministro do STF Alexandre de Moraes ao analisar o atual sistema de voto proporcional em lista aberta para o Legislativo e defender o voto distrital misto. Sem partidos fortalecidos e com um Congresso empoderado e dominado por interesses paroquiais, a democracia ficaria ainda mais em risco.
A ilusão de um governo técnico-gerencial, capaz de impor soluções mágicas de fora para dentro — como o uso de inteligência artificial na saúde pública em um país onde muitos ainda carecem de acesso digno à internet —, é contraproducente. A própria lógica democrática depende do debate aberto de ideias e da construção de legitimidade a partir da soberania popular.
Também é notória a força de Cury entre pessoas com ensino superior: 17% dos votos nessa faixa vão para o outsider. Isso talvez revele entre aqueles formados por instituições de ensino superior de qualidade discutível o pouco apreço pelo emprego do método científico e do conhecimento em geral para lidar com a complexidade envolvida na resolução de problemas públicos.
Um meme que circula na internet com base numa fala do próprio candidato resume bem esse imaginário: “Nem picanha, nem fuzil; quero Rivotril” — referência às bandeiras associadas a Lula, Flávio Bolsonaro e, hipoteticamente, a Cury, que tem formação em psiquiatria e, assim, seria capaz de oferecer um remédio para o Brasil.
Se esse remédio for mesmo como o Rivotril (necessário para os que infelizmente enfrentam questões de saúde mental), na política ele seria o equivalente a uma fuga da realidade: vivemos a eleição mais importante desde a redemocratização, especialmente diante das pressões externas às quais Cury não demonstra possuir a menor habilidade para responder. Sua proposta para o Itamaraty — instalar influenciadores digitais em representações diplomáticas específicas para promover o Brasil — ilustra bem esse problema. Como diria José Simão, me dá licença que vou pingar meu colírio alucinógeno.
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Candidato do Avante conquista quase 10 pontos em apenas uma semana tirando principalmente votos de Flávio Bolsonaro