O reajuste do Bolsa Família representa um aumento de R$ 22 bilhões nas despesas do ano que vem — e deve ser apenas o começo, Fabio MuraKawa e Fábio Pupo escrevem no JOTA PRO Poder.
O Planalto prepara para os próximos dias uma nova ofensiva contra o endividamento, desta vez com preocupação especial em alcançar também a classe média.
Outra medida aguardada para breve buscará restringir a atuação das bets — possibilidade que foi prontamente rebatida pelas federações e clubes com um manifesto pregando um possível “fim do futebol brasileiro”.
A pressa de Lula e do PT encontra respaldo nas pesquisas eleitorais. Os levantamentos divergem sobre o tamanho da vantagem do petista no primeiro turno, mas apontam uma disputa apertada com Flávio Bolsonaro. Daniel Marcelino destrincha os números na nota 2.
Com o noticiário mais uma semana tomado pela crise no Supremo Tribunal Federal, o candidato à reeleição tenta também mudar o assunto. As buscas por Bolsa Família dispararam e, ainda que por um momento, diminuíram a desvantagem digital de Lula, Iago Bolívar analisa no JOTA.
Falando no Supremo, Edson Fachin cancelou a sessão que estava marcada para ontem (17) e retirou o julgamento da abertura de inquérito contra o ministro André Mendonça da pauta da semana que vem. Ainda não há perspectiva de saída para a atual crise.
Paula Bonelli colaborou nesta edição.
Boa leitura e bom fim de semana.
O PONTO CENTRAL
1. 🚜 Esquentando os motores
Com a reeleição sob forte risco, Lula abriu a caixa de ferramentas do governo para tentar chegar ao bolso do eleitor — a começar pelo reajuste do Bolsa Família, Fabio MuraKawa escreve no JOTA PRO Poder.
Por que importa: O aumento de 15%, que eleva o piso de R$ 600 para R$ 691, marca uma inflexão na estratégia eleitoral petista.
- Até aqui, Lula apostava principalmente na comparação de sua gestão com a de Jair Bolsonaro, na defesa do próprio legado e em temas mais distantes do cotidiano, como soberania e minerais críticos.
- Enquanto isso, a campanha foi sendo atropelada pelos escândalos envolvendo Lulinha, o Master e a guerra no Supremo.
- Washington Quaquá, vice-presidente do PT e prefeito de Maricá (RJ), resumiu nesta semana uma das aflições dentro do partido nesta campanha: enquanto Flávio Bolsonaro vai ao supermercado falar da “vida real”, Lula discute terras raras.
- A 17 dias do primeiro turno, o Planalto parece ter acordado para essa realidade — e, agora, o presidente passa a explorar com mais força os instrumentos da máquina pública à disposição.
O reajuste do Bolsa Família não nasceu nesta semana.
- A possibilidade de elevar o benefício vinha sendo discutida havia meses e chegou a ser cogitada para 2026.
- A ideia, porém, esbarrou nas resistências fiscais.
- O projeto de Orçamento de 2027 enviado ao Congresso em agosto também não reservou recursos para a correção agora anunciada.
É justamente essa mudança de rota que dá dimensão à urgência eleitoral — e denota o desespero da campanha com a possibilidade concreta de uma derrota.
- O decreto foi assinado ontem (17), e o novo valor começará a ser pago em 19 de outubro — seis dias antes de um eventual segundo turno.
- O governo sustenta que se trata apenas da recomposição das perdas inflacionárias desde 2023 e que a legislação permite a atualização.
- O custo adicional calculado é de R$ 5,8 bilhões neste ano e R$ 22 bilhões em 2027 — leia mais na nota 3.
🔮 O que observar: A campanha parece ter incorporado o alerta de Quaquá.
- Comparações de indicadores, soberania, democracia e terras raras continuarão no discurso, mas não vão resolver o problema eleitoral do presidente.
- A campanha tenta agora trazer o debate eleitoral de volta ao supermercado, à dívida, às apostas e ao dinheiro que sobra no bolso dos brasileiros no fim do mês.
- A água já está batendo no nariz, e o Planalto decidiu usar as boias que tem à mão enquanto ainda há tempo de não se afogar em uma derrota histórica na última eleição presidencial de Lula.
⏩ Pela frente: A estratégia que se desenha tem duas vertentes.
- De um lado, usar políticas públicas para tentar produzir rapidamente uma percepção de melhora na vida financeira do eleitor.
- De outro, reforçar os ataques contra Flávio Bolsonaro para aumentar sua rejeição, movimento que já aparece com mais clareza na propaganda e nas redes petistas.
- O objetivo é recuperar eleitores que se afastaram de Lula e, ao mesmo tempo, tornar mais custosa uma migração para o adversário.
UMA MENSAGEM DA AMAZON
Plataformas digitais: falta de regras gera risco de duplicidade

A Lei Complementar 214/2025 dispensa de inscrição própria os fornecedores estrangeiros que operam exclusivamente via plataformas digitais registradas. A lógica é direta: se a plataforma está cadastrada, recolhe o tributo e presta informações ao fisco, o registro individual de cada vendedor gera duplicidade sem ganho arrecadatório proporcional. O problema é que essa dispensa ainda carece de regulamentação operacional.
“Em vez de aproximar o não-residente de um contribuinte doméstico, o ideal seria um regime com obrigações compatíveis com o grau de atuação do fornecedor estrangeiro no mercado brasileiro”, conclui Tiago Zonta Guerreiro, advogado do L.O. Baptista Advogados.
Leia o texto completo no JOTA.
2. Do benefício aos votos

Dados da série de pesquisas Nexus/BTG compilados no agregador do JOTA mostram que o apoio a Lula no primeiro turno entre os beneficiários do Bolsa Família varia de 51% a 70%, enquanto Flávio Bolsonaro aparece entre 13% e 27%.
- A vantagem média de Lula nesse segmento é de 38 pontos percentuais, Daniel Marcelino analisa no JOTA PRO Poder.
- No segundo turno, a distância é ainda maior: a vantagem média chega a 43 pontos, com Lula variando de 56% a 75%.
🔭 Panorama: O desafio para Lula, portanto, não é conquistar essa base, na qual já mantém uma vantagem ampla e que chega a 75% da preferência no segundo turno.
- O desafio é converter parte desse apoio em voto já no primeiro turno — e, ao mesmo tempo, mobilizar uma parcela do eleitorado que apresenta taxas mais elevadas de abstenção.
O cálculo do Planalto é arriscado.
- Em 2022, a expansão do Auxílio Brasil melhorou a avaliação e a intenção de voto em Jair Bolsonaro entre parte dos beneficiários, mas não se traduziu imediatamente em uma virada eleitoral nesse segmento.
Além disso, a medida pode produzir um efeito adverso.
- Para parte dos eleitores de classe média que se veem como os principais financiadores das políticas de transferência de renda e já demonstram maior resistência ao governo, o aumento pode ampliar o ressentimento.
- O efeito líquido, portanto, dependerá de como a medida altera a percepção do governo entre os diferentes grupos do eleitorado.
Vale uma ressalva na leitura desses números: a margem de erro de 2 pontos percentuais declarada na pesquisa refere-se à amostra total, de cerca de 2.000 entrevistas, e não aos recortes.
- Como a subamostra de beneficiários é significativamente menor, é natural e esperado que as estimativas apresentem maior oscilação entre as rodadas.
- Essas variações, portanto, devem ser interpretadas com cautela e não necessariamente indicam mudanças reais no comportamento desse eleitorado.
3. Dá bilhão

O aumento no Bolsa Família reforça na equipe econômica a convicção de que uma revisão nos programas sociais é necessária, Fábio Pupo escreve no JOTA.
💸 Panorama: O reajuste anunciado representa um aumento de R$ 22 bilhões nas despesas do ano que vem, o que força um corte na previsão de despesas em outras áreas da proposta orçamentária de 2027 ou um aumento de receitas.
- Há uma margem de apenas R$ 10,1 bilhões para o cumprimento da meta do ano que vem (um superávit equivalente a 0,5% do Produto Interno Bruto).
- O JOTA ouviu de diferentes membros da equipe econômica, nos últimos dias, uma avaliação renovada de que os benefícios devem ser revistos para evitar sobreposições.
- É o caso, por exemplo, de pessoas que recebem por um programa e acabam obtendo algum tipo de auxílio financeiro estatal por outra via. Há, inclusive, sobreposição com pagamentos sociais feitos pelas administrações estaduais.
Alguns programas costumam ser citados nas conversas.
- É o caso do seguro-defeso, que paga aos pescadores um benefício durante o período de reprodução dos peixes…
- …e do abono salarial, que é um 14º salário a quem recebe o salário mínimo.
- Entre algumas ideias, está a de expandir para mais programas o modelo conhecido como despesa com controle de fluxo — aquela que paga somente o que está previsto no Orçamento.
- Ou seja, atingido o teto, não há mais pagamento.
- Uma preocupação maior é o BPC (Benefício de Prestação Continuada), que é pago a pessoas carentes que sejam idosas ou tenham deficiência.
- O programa tem se expandido em grande parte pela via judicial.
⚡ Choque de realidade: Lula continua sem dar grande respaldo a medidas de ajuste, a ponto de chamar a defesa por superávit de “babaquice”.
4. ‘O fim do futebol brasileiro’

Ainda entre as medidas na área econômica, o presidente está decidido a restringir a atuação das bets, Fabio MuraKawa e Fábio Pupo informam no JOTA PRO Poder.
🎲 Panorama: Lula ainda avalia o escopo e o quão pesadas serão as medidas, que devem ser anunciadas nos próximos dias.
- Ele tem ouvido opiniões sobre o assunto de Janja ao ministro Dario Durigan.
- O presidente teria ficado abalado após ouvir relatos de familiares de pessoas que cometeram suicídio em razão de dívidas.
- A proibição total e imediata de todas as modalidades de apostas não deve sair do papel.
Interlocutores creem que as discussões resultem em restrição para cassinos virtuais e modalidades como o jogo do tigrinho.
- Uma das hipóteses é restringir a publicidade do setor — em TVs, rádios, canais de internet, redes sociais e por influenciadores pagos.
- Vetar anúncios em camisas de times de futebol é encarado como arriscado no Planalto pela reação que pode gerar e, por ora, não é consenso.
As federações estaduais articularam junto aos principais clubes do país a divulgação de um manifesto contra a proibição de bets, intitulado “o fim do futebol brasileiro”, segundo o UOL (sem paywall).
- Segundo o texto, “é fundamental aprimorar as medidas de proteção, fiscalização, educação e prevenção, para reduzir riscos e garantir um mercado responsável”.
- “O futebol está mobilizado, reconhece suas responsabilidades e quer participar da solução, de uma forma racional e consciente.”
5. Cabisbaixo e pensativo

O presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, cancelou a sessão de ontem (17) e retirou o julgamento da abertura de inquérito contra o ministro André Mendonça da pauta da próxima quarta (23), Flávia Maia registra no JOTA.
- O presidente alegou que o julgamento não pode ocorrer porque a questão de ordem suscitada na sessão que julgava a abertura de investigação contra Alexandre de Moraes interfere no caso de Mendonça.
Ainda não há nova data definida.
- Já havia movimentações para que a análise da situação de Mendonça fosse adiada.
- Ministros relataram ao JOTA que não havia clima e o mais sensato seria deixar o julgamento para depois.
🔖 Leia mais:
- Novo aciona STF para que Moraes seja impedido de votar no caso Master
- Dino oficia PF para investigar relação entre Master e cemitérios de São Paulo
OPINIÃO
6. Crise no Supremo
- Maurício Palma e Alexandre Douglas Zaidan de Carvalho afirmam que o Supremo tem emitido sinais contraditórios e opera em sobressaltos na sua função de tradutor da fronteira entre direito e política na Constituição. “Transparência não é transmissão ao vivo, mas publicidade das razões”, argumentam. Leia a íntegra.
- José Rodrigo Rodriguez rebate as interpretações de que faltou pulso a Edson Fachin. “Não houve solução, mas houve mudança: a crise deixou os gabinetes e passou a ter o plenário como arena.” Leia a íntegra.
- João Badari discute a importância do rigor técnico do processo à luz da sessão de terça-feira (15). Trata das reviravoltas das grandes questões previdenciárias no Supremo, como o caso da Revisão da Vida Toda. E levanta a questão: “Qual é o grau de previsibilidade que o sistema oferece a quem bate às portas do Judiciário?”. Leia a íntegra.
JOTINHAS SAÚDE
7. Lucro das operadoras e mais
- As operadoras de planos de saúde médico-hospitalares fecharam o primeiro semestre de 2026 com lucro de R$ 10,9 bilhões. O montante representa uma queda de 12% em comparação aos R$ 12,4 bilhões registrados no mesmo período do ano passado. Os dados divulgados pela Agência Nacional de Saúde Suplementar mostram que o Bradesco, com saldo positivo de R$ 2,03 bilhões, e a Amil, com R$ 960 milhões, tiveram os melhores resultados líquidos do setor.No segundo trimestre do ano, 76,3% das operadoras registraram resultado financeiro positivo, enquanto 23,7% tiveram prejuízo. Leia mais.
- A Anvisa abrirá quatro consultas públicas para atualizar o marco regulatório de processamento de dispositivos médicos. A decisão da Diretoria Colegiada busca rever a “lista negativa” de produtos com reutilização proibida, defasada há quase duas décadas, e coibir a rotulagem descriteriosa de itens de uso único. Tramitando desde 2014, com deliberação suspensa por pedido de vista em 2020, o processo reavalia riscos à segurança do paciente e exigências para serviços de saúde e empresas terceirizadas. Leia mais.
- A 2ª Turma da 3ª Câmara da 2ª Seção do Carf derrubou cobranças de contribuições previdenciárias exigidas do Hospital Anchieta S.A. por suposta fraude na contratação de médicos via pessoas jurídicas, em placar de 4 a 2. A maioria dos conselheiros concluiu que a fiscalização se baseou na antiga vedação à terceirização de atividade-fim, contrariando o entendimento do STF no Tema 725. Prevaleceu o voto da relatora Angélica Toledo, ao reconhecer a licitude do modelo e a ausência de coação. O conselheiro Johnny Wilson Araújo Cavalcanti divergiu e afirmou que o Supremo não autorizou a contratação de pessoas jurídicas no lugar de empregados. Leia mais.
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Pressa do PT encontra explicação nas pesquisas eleitorais, que apontam disputa apertada com Flávio Bolsonaro