Há exatos dois anos, produzi uma série de cinco artigos para o JOTA sobre a edição 2024 do Índice Global de Inovação da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (Global Innovation Index e WIPO, em inglês), doravante GII. Esse conjunto de textos, disponível para leitura e ainda muito atual, representa o começo desta coluna mensal sobre temas de inovação e propriedade intelectual.
Em 2025, escrevi sobre o GII para a coluna e proponho mais uma vez analisar a nova edição do documento. Isso porque tenho firme convicção de que o relatório é importante para compreensão de diferentes aspectos da inovação tecnológica global e, também, de como o Brasil se encontra nesse contexto. O GII 2026 avaliou 139 economias em todos os continentes – o Brasil alcançou a 53ª colocação, em mais um retrocesso desde nossa 49ª posição, em 2023.
Importante pontuar, já no começo, que o relatório da WIPO avalia 79 indicadores. Cada um dedica particular atenção a um elemento relevante para o ecossistema da inovação. Os indicadores são divididos em dois macroeixos: um para medir os chamados inputs da inovação e outro para os outputs. Em uma analogia com ferramentas de IA, os inputs objetivam endereçar elementos que serão a base do ecossistema de inovação, enquanto os outputs sugerem quais são os resultados concretos, ou seja, o que a inovação produz.
A boa qualificação no ranking reflete, portanto, diferentes aspectos. A inovação não depende de um único indicador ou de maior capital. Ao contrário, economias inovadoras são capazes de conectar “pesquisa, empresas, financiamento, capacidades técnicas, instituições e mercados em um ecossistema funcional”.
Um exemplo de evolução especialmente interessante é a Arábia Saudita, que em 2026 está na 42ª posição, em um movimento crescente desde 2019, quando era a 68ª economia. Nesse intervalo, o grande salto do país é creditado à melhora de sua pontuação no pilar “Instituições” (25ª posição). Hoje alcançou a 5ª posição do mundo no subindicador “Ambiente de Negócios”, que mede estabilidade política para iniciativa privada e cultura e políticas empreendedoras.
No caso do Brasil, como já indicamos outras vezes, esse é o nosso pior indicador geral. Em 2026, estamos na 129ª posição para o quesito “Ambiente de Negócios” e na 107ª posição do macropilar “Instituições”. Como traremos adiante, nosso mau desempenho aqui não nos impediu de estar em boa posição geral. De fato, avançamos entre 2019-2026, saindo da 66ª para 53ª posição. Mas, como mostra a Arábia Saudita, poderíamos estar muito melhores se conseguíssemos melhorar nesse quesito específico.
A inovação no mundo (e os líderes de sempre)
O GII 2026 traz boas notícias, com volumes recordes de investimento em pesquisa e desenvolvimento globalmente. Em termos percentuais, o investimento global em P&D de 2025 se mantém próximo aos 2% do PIB ao ano, em crescimento constante nas últimas três décadas (linha azul abaixo).
Avaliados os termos absolutos, porém, no ano de 2025 atingiu-se a impressionante cifra de US$ 3,3 trilhões investidos em pesquisa (linha verde) e mantém exponencial crescimento do volume de investimento no mesmo período. Ou seja, a economia recente é, comprovadamente, a economia do conhecimento, da pesquisa e da inovação. Mesmo produzindo mais riqueza ano a ano, a decisão mundial é por manter os níveis percentuais de investimento.

O relatório também indica crescimento recorde no investimento em P&D por parte do setor privado. Entre as maiores empresas do mundo, em 2025 houve investimento equivalente a US$ 1,5 trilhão, representando 6% do investimento em P&D, a maior percentagem até hoje. Em que pese a gigantesca concentração desse investimento estar em atividades relacionadas à tecnologia da computação e informação baseadas em dados e software (aumento de cinco vezes mais investimento desde 2015), o relatório destaca duas áreas de forte atração deste capital: tecnologias espaciais e voltadas para defesa militar.
Para esses segmentos, houve um crescimento sensível e considerável entre 2024 e 2025, que pode ser explicado pela ampliação de orçamentos públicos e programas de financiamento governamental. Se em 2021 foram destinados 19,5 bilhões para essas áreas, em 2025 o total investido chegou a US$ 26 bilhões.
Outro indicador que aponta maior atração de capital para tecnologias da computação é o das operações de venture capital. A nova edição mostra que houve crescimento de 27,9% do investimento em startups, totalizando US$ 508 bilhões (barras azuis). Contudo, tamanho financiamento está cada vez mais concentrado em menos empresas (43.444 startups, linha azul) e 53% destas são dedicadas à IA. Neste ponto, o relatório indica também uma concentração geográfica: US$ 213 bilhões de venture capital foram investidos em IA apenas nos EUA.

Quanto aos países líderes de inovação, o GII 2026 mostra um cenário de estabilidade. Dentre as 25 economias mais bem posicionadas, 12 mantiveram a colocação da edição anterior. A Suíça é o país mais inovador há 16 anos, seguida novamente pela Suécia e pelos EUA. A China se mantém a única representante dos países de renda média no Top 10.
Nenhum país novo adentrou o grupo das 15 economias mais inovadoras, e a Europa segue como o continente com mais países em melhores posições (14 dentre as 25 primeiras). Em um ano de grandes turbulências geopolíticas, ao menos o ecossistema de inovação global não trouxe novidades.
A inovação brasileira em perspectiva
A posição brasileira no GII 2026 identifica nova queda na avaliação do país. Caímos mais uma posição e seguimos atrás do Chile quando comparados os países latino-americanos. Ao avaliar todos os sete pilares de Inovação[1] considerados pela WIPO, percebe-se claramente que temos melhores outputs; os chilenos se destacam nos inputs.
Em outras palavras, o ambiente de Inovação do Chile é mais bem construído, enquanto o Brasil entrega mais resultados. Novamente olhando para o pilar de Instituições, o Chile está na 47ª posição global, enquanto a inovação do Brasil tem sua pior avaliação e está na 106ª posição.
A posição brasileira se mantém este ano em razão de alguns pontos fortes do país: temos um grande mercado interno e sólidos ativos intangíveis. O valor das marcas brasileiras conta com a excelente posição de 8ª do mundo e temos outras posições destacadas em investimento em P&D e operações de venture capital mais maduras. São Paulo foi novamente ranqueada como única cidade da América Latina dentre os 50 maiores clusters do mundo para inovação, justamente por seu destaque na produção científica (a USP representa 53% dos papers) e na atividade inventiva (com bons números de patentes PCT depositadas).
Um novo indicador do GII 2026 também trouxe boas novas para o cenário brasileiro. Por meio do índice Green Field R&D & High Tech FDI, a WIPO pretende mapear investimentos estrangeiros diretos em novos projetos fisicamente localizados em determinado país (que criam empregos e investimento “concreto” de capital), relacionados a P&D, novos designs ou voltados para setores como de semicondutores, biotecnologia, farmacêutico ou de tecnologias da computação. Sob essa nova lente, o Brasil foi considerado o maior “imã de investimentos”, pois recebeu mais investimento do que a média global (próximo da casa dos US$ 100 bilhões).
Outro dado encorajador está no número de startups e spinouts voltadas para “deep science”, consideradas pela WIPO como as empresas dedicadas às inovações nas áreas de materiais avançados, energia, ciências genômicas, tecnologias em saúde, física quântica e biologia sintética. Estas são altamente dependentes de pesquisa avançada, infraestrutura dedicada e validação científica constante e servem de termômetro para o ecossistema de inovação como um todo.
O GII 2026 traz especial avaliação dessas startups de altíssima ciência que se diferenciam das “tradicionais” startups dedicadas a softwares, comércio eletrônico, mercado financeiro ou tecnologias digitais gerais. Aqui pensamos em empresas voltadas às disrupções tecnológicas no campo científico ou da engenharia e que, por isso, têm ciclos mais longos de maturação, maior necessidade de investimento e de capital humano especializado.
A notícia positiva para o Brasil é que estamos entre os países com maior aumento do número de “deep science” startups nos últimos cinco anos. Crescemos pouco mais que 96% na quantidade destas empresas, o que nos coloca na 11ª posição, entre os 20 mais bem colocados.
São essas as boas novas para o cenário da inovação brasileira no GII 2026. Contudo, permanecemos com os desafios há tempos mapeados pela WIPO, como baixa produtividade, reduzido investimento privado em P&D e melhoria do ambiente de negócios. Se resolvidos, certamente poderíamos destravar com mais consistência e rapidez nosso potencial inovador amplamente registrado. A WIPO já mapeou o caminho da inovação e outros países avaliados já o fizeram. Cabe a nós o trabalho de seguir adiante.
[1] Aqui listados: A – Instituições, B – Capital Humano e Pesquisa, C – Infraestrutura, D – Sofisticação de Mercado, E – Sofisticação de Negócios, F – Outputs de conhecimento e tecnologia e G – Outputs criativos.
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Países se apresentam da mesma forma no relatório da OMPI