Romantizaram tanto esse formato de trabalho que os marinheiros de primeira viagem estão sofrendo com esse mar revolto chamado "trabalho remoto forçado".
Muitos acreditam que foram iludidos com tantas promessas de trabalhar com o coração tranquilo e de maneira leve.
Eu sei amigos, não era exatamente daquele jeito que vocês imaginavam que seria. Mas vocês ainda se tornarão bons pais e mães dessa criança que adentrou a vida de vocês tão repentinamente que estão tentando chamar de home-office. Já vi home-office ser vendido como benefício na hora de atrair um talento, vi também ser usado como argumento de transformação na hora de modernizar uma empresa careta e assisti CFO defendendo com unhas e dentes home-office como redução de custos na estrutura.
Mas já vi muita gente sofrendo assédio moral por superiores que não aceitavam muito bem que os seus subordinados estivessem longe do seu cercadinho diário.
Mas de repente o home-office se tornou uma necessidade urgente para muitos modelos continuarem operando.
Até aqueles que torciam o nariz se viram obrigados a embarcar nessa. Acabou o glamour e o desejo de uma hora pra outra?
Nos últimos cinco anos trabalhei remotamente de casa diariamente com equipes em toda América Latina.
Em algumas situações pontuais com equipes nos Estados Unidos, Europa e China. Posso dizer que já vi quase de tudo (de amigo secreto as 06 da manhã, passando pelo dia do chapéu típico dos países e despedidas de muitos colegas que trabalhei por anos junto sem nunca ter visto pessoalmente) e experimentei muitos formatos (workshops de vários dias e reuniões de status em pílulas de 10 minutos) para poder falar com convicção o que serve melhor para mim e para os outros. Mas nada se compara com os tempos atuais. Sinto lhe dizer mas não estamos apenas fazendo home-office.
Estamos dando continuidade a uma rotina de escritório que foi subitamente interrompida e adaptada a fórceps a realidade distinta de cada um.
Sim, estamos lidando com uma situação inesperada e que não recebemos qualquer tipo de treinamento funcional ou preparação emocional.
São conference-calls recheadas de incertezas, de tentativas de levantamento de moral, de piadas para descontrair um clima que não sabemos ainda muito bem como chamar.
A maioria das pessoas que estão precisando trabalhar remotamente hoje não tem sequer um espaço em casa para chamar propriamente de escritório.
É a bancada da cozinha, a mesa do jantar ou o canto do sofá que foi enjambrado em um escritório caseiro em cima do colo que nada se parece com os "escritórios em casa" do Pinterest. É a ausência da poltrona confortável substituída por uma cadeira com almofadas, a internet precária, o computador que não carrega a melhor das configurações, a baixa iluminação, o barulho da televisão de fundo, a panela no fogo, as crianças enclausuradas e sem atividades não entendendo muito bem o começo e término das fronteiras entre o trabalho e as atividades de casa. Apesar de estarmos calejados com coisas que são de um jeito que não deveriam ser. É importante pontuar que tudo isso que estamos vivendo também não é um home-office como deveria realmente ser. Aquela famosa palavrinha "Empatia" que entrou na moda na última década após o uso exacerbado em palestras, vídeos motivacionais, cursos e PPTs - finalmente terá a oportunidade de ser colocada em prática por todos nós.
Se você esquecer de praticar a tal empatia na escuta e no treinamento do olhar é bem provável que você esteja medindo o outro com sua régua e cometendo uma série de julgamentos precipitados.
Vejo muita gente trazendo dicas de produtividade para trabalhar remotamente. Os conteúdos são excelentes e encorajo os amigos consumirem conteúdos que fale, exemplifique e estresse diferentes modelos de home-office para poder encontrar aquilo que mais se adeque ao seu perfil. Mas nesse momento tão sensível que atravessamos como civilização, não se sinta pressionado pela produtividade que custará sua saúde e a relação com o próximo. Dosar humanidade, gentileza, generosidade e sensibilidade com a tal buscada produtividade pode tornar a sua rotina e de muitas outras pessoas muito melhor.
Quem sabe até trazer mais produtividade através do acolhimento. A tentativa do Control C + Control V do modus operandi do escritório no seu lar.
Um dos maiores erros que vejo no home-office do passado e dessa nova realidade é a tentativa de mimetização da rotina e do ambiente de um escritório que tem seus próprios códigos e dinâmica para todos os funcionários.
Tentar reproduzir essa matriz em um ambiente domiciliar que opera em uma outra lógica de tempo, espaço e pessoas.
Assumir que sua casa não é sua empresa é um belo começo para evitar a ansiedade e buscar um formato que você consiga estabelecer uma jornada de trabalho com confiança, conforto e concentração. Achar que a realidade do outro é igual a sua. Se você é gestor, entenda que 08:00 da manhã na sua casa pode ser muito diferente às 08:00 dos seus colaboradores. As escolas estão paradas, as crianças estão em casa.
Elas podem estar acordando, seus cafés podem estar sendo preparados, seus pais podem estar dando banho nelas. Se você é colaborador, entenda que seu gestor pode não estar no seu dia mais inspirador. Dor de cabeça e mal humor afetam qualquer ser humano sem olhar para cargos e funções corporativas. Esteja aberto aos imprevistos que podem e irão acontecer. Não se trata de uma situação de home-office típica e planejada.
É um puxadinho da segurança que muitas pessoas colocaram de pé para impedir que a engrenagem do sistema parasse. O mito de se vestir para trabalhar. Nem tanto ao céu, nem tanto a terra. Você não precisa colocar a mesma roupa formal que utilizava todos os dias para trabalhar. Nem os ministros estão usando suas togas e ternos (acabei de ver no jornal). Mas também não precisa ficar largado, de cabelo despenteado, de pijama, sem tomar um banho. Coloque uma roupa confortável o suficiente para ficar bem em casa, mas que não se sinta constrangido ou preocupado para abrir a câmera com qualquer pessoa que seja. Use o mesmo filtro para avaliar as pessoas que vão falar com você e estão remotas. Está todo mundo tendo que se virar para entregar o seu melhor.
A roupa impecável e bem passada vai ter que ficar para outro momento. Lembre-se: Seja gentil. Não meça os outros com sua régua. Seja cuidadoso na comunicação. Falta de empatia e generosidade é atitude improdutiva. Na dúvida de como agir, se pergunte: o que o amor faria no lugar do medo? Autor : Diego Dumont